josé-júlio lopes

NEFERTITI
  • CORPUS (2016) | Primeira audição absoluta

    CORPUS (2016) | José Júlio Lopes (1957)
    para orquestra e piano
    em memória de Berta Pizarro e de Júlio Alberto Lopes
    para o Artur

    Primeira audição absoluta em 7 de Abril de 2016, no Grande Auditório da FCG, em Lisboa, por Artur Pizarro, piano, e a Orquestra Gulbenkian dirigida por Michal Nesterowicz.

    Tanto quanto se pode dizer de uma peça musical que ela tem um assunto ou um tema, Corpus é sobre morte e vida, sobre existir – sem mistificações: são inquietações humanas. Neste sentido – e evitando sobre a criação musical a tentação romântica da descrição figurativa –, a peça revela pensamento, antagonismos, revolta, tensão dramática.

    Corpus tem como princípio criativo a ideia de movimento. É a ignição de um "motor harmónico" que gera a sua construção. É um movimento contínuo, através do qual corpos harmónicos (entidades intervalares) são sucessivamente usados e desagregados e, mais à frente, reagrupados noutro corpo harmónico. Sucessivamente. Compondo e descompondo. Até ao infinito.

    Não sendo um concerto para piano (na designação convencional), o piano é o protagonista: é o piano o portador deste processo de contágio e de transformação. A escrita do piano é por isso predominantemente horizontal e "pontiaguda", entrando umas vezes em choque com a resistência vertical do discurso harmónico da orquestra, para perfurar e transformar; outras vezes coexistindo ensimesmada, presa no gesto e na evocação de uma música interior.

    Nesta peça, a ideia de fragmento (o grande fragmento) corresponde à ideia de ruína, ou seja, a sedimentação de material de uma história sonora comum. Esse material surge em camadas sobrepostas, em discursos que se amontoam. A peça inicia-se, de resto, pela evocação de uma memória musical não muito longínqua que ecoa (o grande gesto pianístico), num processo reiterado de reverberações e reconhecimentos partilhados, e desliza por entre muitas das referências que ecoam na memória – de que também fazem parte irreprimíveis ruínas do contemporâneo omnipresente –, num processo de abstratização crescente e imparável.

    A esperança faz acreditar que este processo sucessivo seria infinito.

    Corpus é dedicada ao Artur Pizarro, em memória de duas pessoas cuja existência é realmente infinita.

    Corpus é uma encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian / Serviço de Música.

    copyright © 2015/2016, José Júlio Lopes